terça-feira, 10 de março de 2020

A formiga, a cigarra e os concursos

Quando eu era criança, lembro de ter lido uma história em quadrinhos do Chico Bento em que o mesmo ia trabalhar  duro todos os dias com uma enxada deitada sobre o ombro - exploração de trabalho infantil, ninguém ligava naquela época? - e passava por um personagem sem nome que tocava violão e cantarolava sobre a cerca.

Naquela época eu já sabia que essa era uma sátira de uma famosa velha História que remonta a Grécia Antiga, de qualquer forma, transcrevo a seguir uma versão lusófona - tradução do grande Bocage sobre a releitura de La Fontaine: 

A cigarra e a formiga 

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
La Fontaine – La Cigale et la Fourmi,
illustration Jean-Jacques Grandville (1847)
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso Estio.

«Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé d’animal,
Pagar-vos antes d’Agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! bravo!», torna a formiga.
– Cantavas? Pois dança agora!»


Quanta riqueza em tão poucas palavras! A história é um clássico conto do que pode acontecer se você não trabalhar duro. Mas, mais que isso, ensina que o trabalho árduo é recompensado.

Não é astrofísica meus amigos, a moral da fábula é de fácil assimilamento: A ociosidade é perniciosa e traz um futuro tenebroso/ o trabalho duro é moral e traz um futuro promissor

Era verdade na Grécia antiga de Esopo, é verdade no Brasil de agora.

Tenho um amigo que é reencarnação viva da cigarra desta fábula, passa o dia no sofá tocando violão, sendo bancado pelos pais. Ele é um homem culto, imagino que esteja familiarizado com essa velha fábula, mas de algum modo não se vê nela.

Todos conhecemos algumas cigarras ao longo de nossas vidas, bem como conhecemos formigas.

Sendo frugais e cautelosas, as formigas depositam seus ganhos excedentes em bancos. As cigarras gastam tudo o que recebem com coisas idiotas.

A boa noticia é que não somos personagens de fábulas, então não precisamos ser uma cigarra para sempre.


Na história, a cigarra está muito feliz no começo. É primavera e as flores estão florescendo. O sol está brilhando. Ela quer cantar, dançar, tocar e se divertir.


No entanto, a formiga sabe, como gostam de nos informar em Game of Thrones, que o inverno está chegando. Este inverno, pode não ser o literal da fábula, pode ser um período de tempos financeiros difíceis. 

E para concursos, o que essa clássica fábula nos ensina?

Não é muito diferente da moral geral quando afunilamos o escopo dos ensinamentos a área de concursos. 

Comecei a estudar seriamente para concursos la pelos idos de 2016, de la para cá colecionei boas colocações e estou em meu segundo cargo público pós 2016 - já tive outros antes disso, mas eram tão ruins que eu nem contabilizo. Ainda estou longe do meu numero mágico aquele que vai me fazer sossegar e dizer "bom, agora o Estado já me dá o suficiente,  seria feio reclamar de um salário destes num país como este, cheio de pessoas pobres, agora posso buscar fontes de renda secundárias."

Mas enfim, tive muitos amigos que me conheciam já em 2016, mas de la para cá ficaram no mesmo lugar, muitos deles cigarras que veem o tempo passar e não encontram evolução.

E você, é uma formiga ou uma cigarra?

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Recomendação de post

Estava olhando um post muito bom no blog do bicho Poupão em que o mesmo traça um breve apanhado geral do histórico dos concursos públicos pós 88 e até tenta imaginar a situação num futuro próximo. 

O texto traz diversas provocações interessantes e recomendo que o leitor o confira. 

Poupão fala da Golden Age dos anos 2000 - que infelizmente eu não peguei - e da transição para o que eu chamo Idade das Trevas dos concursos - quem quer que tenha entrado em concursos grandes neste período tem meu total respeito - que foram os anos 2010, nos quais eu me tornei concurseiro e hoje sou concursado em um cargo relativamente modesto para o setor público, entretanto muito bom em relação ao setor privado. 

Prever o futuro é bastante difícil. Poupão demonstra em seu texto não enxergar de forma promissora o futuro concurseiro. Eu também não. Não tenho o dom a premonição, mas fato é que uma época como os anos 2000 dificilmente voltará.

Enquanto servidor público, tenho que agradecer a Deus todos os dias por essa oportunidade. Entretanto, não quero que pareça que eu reclamo de barriga cheia, mas ainda quero traçar voos mais altos, então ainda sou concurseiro, por mais difícil que isso possa ser hoje em dia.

Senado vem aí, vamos com tudo!

4 comentários:

  1. Corona Virus cancelou o concurso do IBGE e fodeu muita gente...

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    1. Adiado para 2021, pelo que ouvi falar, realmente uma pena, mas não somente concurseiros estão sendo prejudicados, a economia de diversos países parou, qm tá em casa não ta na rua ganhando dinheiro.

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  2. background rápido: estudei cerca de 4 meses a sério [4h por dia], 3 meses de cigarra, e voltei há um mês e pouco a estudar sério. Encontrei um concurso do meu estado de nível médio com 28 vagas e que paga merreca (menos de 3 salários mínimos). Será que mantendo as 4 horas diárias é viável passar?

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    1. Anon, a maioria dos concurseiros dirá que não, mas estes estão seguindo narrativas pré fabricadas... eu acredito que da para passar sim, estudando bem na reta final (ultimo mês antes da prova), dá pra ficar competitivo e classificar nas vagas em um concurso com essas descrição, vai depender do detalhe, uma questãozinha ou outra vai definir se vai pra dentro das vagas, mas com certeza dá pra ficar competitivo.

      Abraços.

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Nobres leitores, se eu demorar a responder, é porque provavelmente tô fazendo cosplay de eremita e estudando pra concursos.

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